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A fusão de “Brasilhana” aponta novos caminhos

Uma rara unanimidade, a música de Talo Pereyra/Robson Barenho enfrentou em palco outra explosão rítmica, no trabalho de Tambo do Bando para “O bombo da Noite”.

Embalado pelas inovações e avanços musicais do ano anterior, 1986 seria mais um ano definitivo para o musicanto. Na quarta edição surgiria uma música que, de várias formas, sintetizaria todos os propósitos do festival em busca de novas expressões apara a música gaúcha e brasileira, principalmente a partir da troca de informações com ritmos e gêneros latino-americanos. Fusão era a palavra chave, modernidade uma questão emergente. Não era possível ficar preso a estéticas de duas décadas.

E a dupla Talo Pereyra/Robson Barenho trouxe “Brasilhana” para concretizar esse novo momento. A partir dela, brasileira e castelhana em seu mais amplo sentido, a música brasileira anunciava, a partir do sul, novos horizontes abertos a dança e a mistura de raças: uma milonga com passagem para samba, uma síntese dos novos tempos que brotavam da emergente democracia. “Brasilhana” antecedeu muita coisa, inclusive a lambada, que se tornaria sucesso quatro anos mais tarde. E abria um novo tempo na valorização dos ritmos da América espanhola e mestiça.

Além de “Brasilhana”, marcaram o 4º Musicanto a música “O Bombo da Noite”, defendida pela Tambo do Bando, então em formação, e “A Cidade”, belo trabalho com arranjo de música de câmara, da compositora Maria Rita Stumph. De outros estados, apenas o paulista Celso Viáfora conseguiu classificar música – “Filhos da Ventania” – entre as finalistas. Foi a menor participação nacional até então.

Encerrado o festival, os artistas estavam felizes e as repercussões pipocavam de maneira extremamente favorável aos destinos do festival. “O Musicanto é terrivelmente democrático”, lascou Sérgio Metz, letrista do Tambo do Bando. “Sem dúvida foi uma das melhores e mais justas finais do Musicanto, que torna-se definitivamente, o festival nº 1 do Rio Grande do Sul e um dos principais do Brasil pelo reconhecimento dos participantes, ótima organização e muitas atrações durante seus cinco dias”, estampou Zero Hora em matéria de capa do 2º caderno.

O letrista vitorioso, Robson Barenho, que vive em Brasília, pressentiu a força da obra e aportou por aqui: “Está na hora de desproclamarmos a República do Piratini”, disse. “Há 150 anos se fez o gesto de separar o Rio Grande do Brasil por interesses políticos e econômicos. Agora, precisa-se reintegrar o Brasil. Vamos fazer música popular daqui e brasileira também, abrir as fronteiras que se colocaram à nossa frente. O Musicanto chegou até onde está por um trabalho que vem sendo desenvolvido por muitas pessoas no sentido de soltar as amarras de nossa cultura”. Diante do zum zum de alguns com relação à filosofia do festival que não valorizaria a autêntica música gaúcha seu criador e coordenador, Luiz Carlos Borges, veio a público e disse que isso era desnecessário, que havia espaço para todos. “Os espaços conquistados pelo Musicanto foram enormes e sua democracia e proposta devem ser asseguradas por todos aqueles que pretendem fazer arte regional algo integrado as raízes brasileiras, e não um curral de interesses localizados”.

O crítico Juarez Fonseca, de Zero Hora, assinalou: “Musicanto é abertura e precisa continuar sendo isso, embora a cada edição se levantem vozes noturnas pedindo um recuo nessa proposta. Se recuar, se barrar as idéias novas, será mais um festival entre tantos iguais. É incrível como o autoritarismo se agarra a cabeça das pessoas. Temos mais de 30 festivais fechados em torno do nativismo (ou tradicionalismo) e essas cabeças querem que o único que foge do padrão venha para o seio do rebanho bem-comportado”.

Em 86, fizeram shows em Santa Rosa, Antônio Tarragô Ros, Sérgio Reis, Conjunto Farroupilha, Genésio Tocantins, Neto Fagundes, Renato Borghetti, João de Almeida Neto & Elton Saldanha, Glória Oliveira, Rui Biriva e Canto Livre.

Fonte: Revista Musicanto 10 anos – Novembro de 1992. Página 10.


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