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Em time que está ganhando...

Há quase unanimidade de opiniões: o Musicanto vem dando certo e não é bom apostar no incerto, nesse momento. Mas os compositores gostariam de ver o evento como uma mostra, retirando um pouco do seu aspecto competitivo.

“O Musicanto sempre foi um festival extremamente honesto em suas decisões, nunca favoreceu ninguém” (Luiz Carlos Borges).

“O Musicanto é um festival inacabado, que não tem fim, está sempre gerando discussão. Por isso se permite a gerar polêmicas, o que é saudável” (Aquiles Giovelli).

Passada a primeira década, começa a hora de pensar sobre qual o melhor caminho a seguir. Decisões nessa hora, pesam muito. O Musicanto cumpriu um ciclo de dez anos. Agora terá que ser repensado. Segue como é? Muda radicalmente? Inventa novas formas, tornando-se por exemplo, mais uma mostra do que um festival competitivo?

A maioria dos músicos, produtores, jornalistas e criadores em geral pensam que não é bom mexer muito. Arte tem pernas próprias e, afinal, o Musicanto vem dando certo. Se foi um diferencial entre a maioria dos festivais gaúchos, projetou Santa Rosa nas vias culturais do país e foi palco de avanços consideráveis da música popular do Rio Grande do Sul, talvez não devesse apostar no improvável. A opinião de algumas pessoas importantes sobre o assunto:

APARÍCIO SILVA RILLO (poeta, escritor, várias vezes concorrente e jurado do Musicanto) – “Vivemos os gaúchos, especialmente na década de 80, uma inflação de festivais. Com as exceções da regra, um a cara do outro. O Musicanto permitiu-se uma guinada para melhor, e, sobretudo, mais abrangente no que tange a temática e os ritmos. Acredito que, por ter se “abrasileirado”, o Musicanto garante para si próprio um futuro de mais abrangente espectro. Enquanto, nota-se, o Musicanto ganha em dimensão e expressão, outros festivais, inclusive mais antigos, perdem em vitalidade e acabam sendo espetáculos locais ou apenas micro-regionais. A saturação – mesmos temas, mesmos ritmos, mesma gente no palco – retira-lhes o novo e o inusitado. O evento é esquecido no dia próximo  finalíssima. Acho que das dezenas de festivais que tivemos, permanecerão poucos. E não por acaso, exatamente os que na trilha do Musicanto, agrandaram suas propostas e abriram oportunidades às manifestações musicais de abrangência maior”.

ZUZA HOMEM DE MELLO (pesquisador de MPB, produtor, idealizador de eventos como o Free Jazz) – “A política seguida pelo Musicanto é correta. Qualquer tipo de cerceamento restringe a arte. Não adianta ficar em discussões insossas sobre o é e o que não é. Toda vez que houver distinção, cria-se um problema. É por sua abertura que o Musicanto consegue ser um festival que abrange todo o Brasil”.

PAULO GARFUNKEL (compositor, músico, escritor, vencedor da 9ª edição) – “O Musicanto deve continuar seu caminho. O Rio Grande do Sul não pode ser separatista. O Brasil precisa dos gaúchos assim como precisamos da Bahia, do baião, do forró, da lambada, do bumba-meu-boi, do samba-canção, da balada, da milonga. E o avanço precisa ser gradual, seguro, precisamos dar um mergulho para dentro de nós, como fez o Japão, por exemplo, para nos elevarmos como nação. Não podemos nos perder, ficar comprando sucata estrangeira. Nós não fomos descobertos, fomos saqueados e toda nossa história. Por isso o Rio Grande não pode se fechar para o Brasil”.

JOAO CARLOS BOTEZELLI (Pelão, produtor de discos e responsável por eventos como MBP-Shel) – “Em geral, para a grande mídia e a indústria fonográfica, os festivais hoje não representam mais nada. Mas festivais são importantes; através deles surgiram várias gerações da MPB. E o Musicanto fez sua opção, tem que continuar apostando nela. Para o Musicanto é importante querer sair da cultura local apenas, ir de encontro ao Brasil, se tornar mais aberto, mais livre. Imaginei o Musicanto fazendo nativismo como o Piazzolla fez com o tango, mas acho que ele se tornou um leque muito mais amplo. Agora, o festival é bastante conhecido em todo o Brasil, e isso é importante”.

BEBETO ALVES (compositor, autor de seis Lps) – “O problema dos festivais é que as pessoas fazem música para vencer, e isso põe em dúvida a arte em si, a qualidade e a criação. Sabemos que existe um nivelamento por baixo – e esse é o furo da bala. A única motivação, no caso do Musicanto, é o prêmio. Eu mesmo estaria sendo desonesto se dissesse que não estou me inscrevendo pelo prêmio.

A vitória em si e o disco não dão muita projeção. Aliás, atualmente, os festivais apresentam as mesmas pessoas e não projetam mais nada. Quem tinha que ser projetado já o foi. Pra mim, a saída é os festivais se transformarem em mostras de arte, com seminários, debates, agitação cultural que mexa com a cidade toda. As pessoas discutindo cultura, que o público possa te ver como artista completo. A competição mexe com as pessoas, mas tá todo mundo a fim de ver quem vai ganhar. E só. Música não é assim, não é um esporte, não tem essa coisa de momento. Seria melhor uma mostra profissional com festival apenas amador, para proporcionar a descoberta de novos talentos. O prêmio tira a naturalidade da arte”.

NELSON COELHO DE CASTRO (compositor, 3 Lps gravados, vencedor do 1º Musicanto) – “Gosto da idéia do Musicanto começar a se voltar para ser mais uma mostra, tirando um pouco do aspecto competitivo. As pessoas estão mais amadurecidas, seguras de si, não é mais necessário a disputa um tanto amadora que a idéia de festival sugere. Sempre tive o maior carinho pelo Musicanto, é o único festival que me inscrevo, mas uma mostra sugere uma convivência maior. Chegamos ao amadurecimento e precisamos praticar isso”.

SÉRGIO ROJAS (compositor, vencedor do 3º Musicanto) – “Como todo grande festival, o Musicanto tem seus privilégios e suas contradições. Temos que ver que existe uma estagnação geral dos festivais no sul e no Brasil e o Musicanto não escapa disso. Mas é o festival onde todos vão melhor preparados. A abertura que ele proporciona é maravilhosa. Já vi coisas incríveis nesse palco, como o Deio Escobar fazendo minimalismo. Acho que ele tem que seguir seu caminho, aperfeiçoando sua fórmula”.

Fonte: Revista Musicanto 10 anos – Novembro de 1992. Página 18.

Pesquisa: Edemir Leite


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