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A experiência é uma lâmpada fraca, que só ilumina quem a carrega

Os anos rebeldes estavam saindo para entrar para a Globo e nós escapando de uma história para entrar noutra. Vivíamos em Santa Maria, nos anos 70, um Mercosul surreal de venda e troca de sotaques e sinas entre jovens que vinham de todas as partes do Estado e de alguns países da América Espanhola. Era um tempo de variadas fundações de correntes estéticas e políticas entre muitos desses estudantes. Nasciam cem escolas e cem flores, mas um estranhamento nos tomava conta: não participávamos do mundo “oficial” e o mundo “oficial” era uma fixação de mídia e quartéis. Isto nos identificava com a América Latina pois intercambiávamos um mundo sonâmbulo e bocejante, apesar de altivez e também do nojo. Era um acampamento de náufragos sem consciência oceânica, ainda.

Procurando algum terreno de unidade onde amainar nossa ansiedade, encontramos Atahualpa Yupanqui e Bob Dylan e, de tanto atormenta-los com nossos pesadelos, tornamo-nos, finalmente, uma espécie de derivados destes cantores; um similar nacional com Chico Buarque no coração, Dylan na cabeça a Atahualpa nos olhos. Todos monstros dentro de nossas próprias e insuportáveis peles.

Certa vez demos de cara com Martin Coplas e seu som andino, os Tapes e suas canções litorâneas, os Angüeras e o memorial imaginário de Rillo, Noel Guarani e sua música sobre poemas de Aureliano de Figueiredo pinto. Nunca mais fomos iguais.

Luiz Carlos Borges estava conosco e numa madrugada acordamos toda a Casa do Estudante Universitário com um som de tal forma intenso e variado que as pessoas despertando, ao invés de nos vaiar, aplaudiam nas janelas. Se eu pudesse depor sobre o Musicanto diria que ele nasceu ali, entre estudantes de várias regiões – alguns de Santa Rosa – quando algo entrecruzou nossa história e nossa utopia. Um som que fora feito sem a menor pretensão.

Escrevo isso, pois acompanho o Musicanto desde seu nascimento em Santa Rosa, através da coragem de Erni Friderichs e sua equipe, que bancavam a visão da América Latina que Borges transportava em sua alma desde aquela madrugada santa-mariense. Foi um sonho de angustiada transumância, um sonho que poderia ter se realizado na Boca do Monte, como quase viu a luz em São Borja, quando aquela cidade o tentou.

Como todos os projetos que nascem municipais e se tornam, no mínimo, nacionais, a comunidade de origem que gerou um prodígio que a cada instante a abandona. Mas este filho o Musicanto carrega a cidade como poucos que tenho notícia que conseguiu superar a barreira ideológica entre organização e artistas para instaurar um palco contraditório e livre, e assegurar – com a convenção do prêmio – a gravação de um disco de qualidade internacional. Quem é do ramo e aprecia este fazer estético sabe que isso é maravilhoso.

Quando muitos viravam as costas para a necessidade de unidade latino-americana, o Musicanto caminhava neste sentido, com pressa e precisão.

Sinto que o Musicanto é frágil, pois é feito com o material dos sonhos. É uma lamparina de delgado lume carregada por todos nós, que em nosso fazer somos de sonho de lume de lamparina frágil carregada pelo tempo sem memória.

Luiz Sérgio Metz – Jornalista e Compositor – In memorian.

Fonte: Revista Musicanto 10 anos – Novembro de 1992.


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